Lugares Zona Oeste RJ

Curiosidades , dicas , história e roteiros de turismo na AP5 da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Lugares Zona Oeste RJ

Curiosidades , dicas , história e roteiros de turismo na AP5 da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Campo GrandeZona Oeste

Campo Grande: da “citrolândia” ao maior bairro da Zona Oeste do Rio

Poucos bairros cariocas tiveram uma trajetória tão longa e multifacetada quanto Campo Grande. De território indígena a grande produtor de café e laranja, passando pela chegada dos trilhos e dos bondes, até se transformar em um dos maiores polos urbanos e comerciais da Zona Oeste, a região acumula mais de quatro séculos de histórias entrelaçadas com o próprio desenvolvimento do Rio de Janeiro.

Dos Indígenas Tupinambás às sesmarias coloniais

O nome Campo Grande originalmente designava uma vasta extensão de terras que ia do atual bairro de Deodoro, passando por Bangu, até Cosmos — uma área que se estendia do rio da Prata até o Mendanha. Antes da colonização, essa região era habitada pelos Tupinambás.

Após a fundação da Cidade do Rio de Janeiro, em 1565, o território passou a integrar a grande Sesmaria de Irajá. Em 1673, a área foi desmembrada e doada pelo Governo Colonial a Manoel Barcelos Domingos, proprietário de uma extensa propriedade que se estendia até o Gericinó.

A freguesia, a cana-de-açúcar e o café

Em 1757, foi criada a freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, onde foi erguida a Igreja Matriz, que permanece de pé até os dias de hoje. Naquele período, as principais atividades econômicas da região eram o cultivo da cana-de-açúcar e a criação de gado bovino, cuja produção era escoada pela Estrada Real de Santa Cruz, via que ligava a região até São Cristóvão.

Entre 1760 e 1770, um episódio marcante mudaria os rumos econômicos de toda a região: na antiga fazenda do Mendanha, o padre Antonio Couto da Fonseca plantou as primeiras mudas de café, um marco que impulsionaria o desenvolvimento da cultura cafeeira por todo o Vale do Paraíba, alcançando até Minas Gerais.

Nessa época, os povoados ainda se concentravam nas proximidades dos engenhos e fazendas, entre os quais se destacavam Juary, rio da Prata, Cabuçu, Santo Antônio do Juary, Tingui, Campinho, Guandu, Mendanha, Capoeiras, Pedregoso, Dona Maria, Marcolino da Costa e Sant’Ana.

A ferrovia e os bondes: o adensamento urbano

A partir da segunda metade do século XIX, com a implantação da Estrada de Ferro Dom Pedro II, foi construída a estação de Campo Grande, inaugurada em 2 de dezembro de 1879. A chegada dos trilhos contribuiu decisivamente para o adensamento do núcleo urbano do bairro, já que facilitava o acesso ao Centro da cidade.

Em 1894, a Companhia de Carris Urbanos obteve a concessão para explorar uma linha de bondes de tração animal, alcançando localidades mais distantes. Já em 1915, os bondes elétricos foram implantados, ampliando ainda mais a ocupação da área e estimulando um intenso comércio interno.

De “citrolândia” à industrialização

Com a decadência da cultura do café, a região se voltou para a citricultura. Dos primeiros anos do século XX até a década de 1940, Campo Grande se consolidou como uma das grandes produtoras de laranja do estado, o que lhe rendeu o apelido de “citrolândia” — um capítulo curioso e pouco lembrado da história do bairro.

Na década de 1930, durante o governo de Washington Luís, a Estrada Real de Santa Cruz foi incorporada à antiga estrada Rio-São Paulo, integrando definitivamente Campo Grande ao tecido urbano da cidade. Já na década de 1960, sob o governo de Carlos Lacerda, a Avenida Brasil — aberta em 1946 — chegaria até Campo Grande, abrindo caminho para uma nova fase de desenvolvimento.

A partir desse momento, surgiu o Distrito Industrial de Campo Grande, com destaque para a instalação da fábrica de pneus Michelin, que ajudou a redesenhar o perfil de uma região até então predominantemente agrícola.

Loteamentos e expansão urbana

Ao longo dos eixos formados pelas estradas do Cabuçu, do Pré, do Monteiro, da Cachamorra, de Campinho, do Pedregoso, de Sete Riachos, do Mendanha e da Posse, surgiram diversos loteamentos que ajudaram a moldar o bairro como se conhece hoje. Entre os mais destacados estão:

  • Santa Margarida
  • Corcundinha
  • Vila Palmares
  • Vila Iêda
  • Adriana
  • Pedra Angular
  • Santa Maria
  • Jardim Paulista
  • Vila Santa Rita
  • Arnaldo Eugênio
  • Vila Jardim Campo Grande
  • Hortências
  • Diana
  • São Jorge
  • Morada do Campo
  • Jardim Monteiro
  • Nova Guaratiba

O núcleo comercial e as áreas verdes preservadas

O núcleo original de Campo Grande se transformou em um dos mais importantes centros comerciais da Zona Oeste, com destaque para a rua Coronel Agostinho, popularmente conhecida como “Calçadão”, localizada nas proximidades da estação ferroviária e do terminal de ônibus.

Apesar da intensa urbanização, ainda restam bolsões agrícolas nas regiões da Serrinha, do Mendanha e do rio da Prata — lembranças vivas do passado rural do bairro.

Merece destaque também a Serra do Mendanha, com sua reserva florestal e suas cachoeiras, além do Parque Estadual da Pedra Branca, que conta com trilhas voltadas ao ecoturismo e dá acesso ao ponto mais alto do município do Rio de Janeiro: o Pico da Pedra Branca, com 1.025 metros de altitude.

Um bairro que resume a história da Zona Oeste

Da presença indígena às sesmarias coloniais, da cana-de-açúcar ao café, da laranja à indústria, Campo Grande carrega em sua trajetória boa parte da própria história de expansão do Rio de Janeiro rumo à Zona Oeste. Hoje, como um dos maiores e mais populosos bairros da cidade, segue equilibrando seu papel de grande centro urbano e comercial com resquícios de um passado rural que ainda resiste em alguns de seus cantos.


Nota histórica: a denominação, delimitação e codificação do bairro de Campo Grande foram estabelecidas pelo Decreto Nº 3.158, de 23 de julho de 1981, com alterações promovidas pelo Decreto Nº 5.280, de 23 de agosto de 1985.

deca serejo

Deca Serejo é maranhense, moradora de Campo Grande, guia de turismo, graduanda em História e apaixonada pela cidade maravilhosa ,bairrista e idealizadora do Rio de Coração Tour, um Projeto de turismo e de valorização de territórios na Área de Planejamento 5.2 da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *