Senador Camará: das fazendas de café às comunidades da Zona Oeste carioca
Poucos bairros do Rio de Janeiro reúnem tantas camadas históricas quanto Senador Camará. Entre fazendas centenárias, capelas tombadas, a chegada da ferrovia e o surgimento de dezenas de comunidades ao longo do século XX, a região se consolidou como um retrato vivo da expansão urbana na Zona Oeste da cidade.
Antes de mergulhar nessa trajetória, é comum que muitas pessoas queiram entender melhor Senador Camará onde fica dentro do mapa da cidade, assim como surge com frequência a dúvida se Senador Camará é perigoso. Conhecer a formação histórica do bairro ajuda a compreender melhor sua realidade atual.
As fazendas fundadoras: Coqueiros e Viegas
Parte do território de Senador Camará pertenceu à Fazenda dos Coqueiros, fundada em 1720 por Manuel Antunes Suzano. Suas terras se estendiam desde os limites com a Fazenda do Viegas até a Serra do Mendanha, formando uma das grandes propriedades rurais que ocupavam a região.
Já a Fazenda do Viegas tem origem ainda mais antiga: foi sede do antigo Engenho da Lapa, fundado no século XVII pelo colonizador Manuel de Souza Viegas, nome que batizou o morro, o caminho e a estrada da região. Em 1725, a propriedade passou às mãos de Francisco Garcia do Amaral, responsável pela construção da Capela de Nossa Senhora da Lapa.
Por quase 80 anos, a Fazenda do Viegas produziu cana-de-açúcar, sendo considerada a segunda mais importante da freguesia de Campo Grande. Com o avanço da cafeicultura no início do século XIX, tornou-se uma das pioneiras na produção de café no Brasil, espalhando suas lavouras pelas Serras de Bangu, do Lameirão e do Mendanha — atingindo o auge de produção por volta de 1800.
Um ponto de passagem imperial
Cortada pela Estrada Real de Santa Cruz, atual avenida de Santa Cruz, a Fazenda do Viegas chegou a servir de hospedagem ao Imperador Dom Pedro II em suas viagens à região de Santa Cruz. Na época, a propriedade pertencia aos herdeiros de Helena Januária Campos Cardoso.
Em 1938, a sede da fazenda e sua capela anexa foram tombadas pela União, reconhecimento de seu valor histórico. Décadas mais tarde, em 1995, uma reforma promovida pela Prefeitura (DGPC) recuperou os imóveis históricos, e, em 1999, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMAC) realizou um projeto de revitalização paisagística e cercamento do local, consolidando o Parque Municipal Fazenda do Viegas como importante área verde da região. Atualmente, a antiga sede da fazenda abriga a Subprefeitura da Zona Oeste.
Além da Estrada Real, outras vias históricas conectavam a região, como as estradas de Taquaral, dos Coqueiros e do Viegas, que faziam a ligação entre Bangu e Campo Grande.
A chegada da ferrovia e a origem do nome do bairro
No final do século XIX, a ferrovia chegou à região por meio do ramal de Mangaratiba. A estação Senador Camará foi inaugurada em 1º de junho de 1923, em homenagem a Otacílio de Carvalho Camará, político gaúcho que foi deputado pelo Distrito Federal em 1915 e senador em 1919, falecendo apenas um ano depois de assumir o cargo.
A escolha do nome ainda gera dúvidas entre historiadores, mas há relatos de que o senador residia no bairro de Santa Cruz e teria direcionado verbas públicas para beneficiar essa área e Campo Grande, em detrimento de Bangu e regiões vizinhas, onde a Prefeitura deixava as melhorias urbanas a cargo da Fábrica Bangu.
Urbanização, loteamentos e o Bairro Jabour
Com o tempo, a Fábrica Bangu se transformaria em uma grande companhia imobiliária, promovendo o loteamento e a urbanização de terrenos em direção a Senador Camará, ao longo da avenida de Santa Cruz e da estrada do Viegas.
Já na década de 1950, os irmãos Jabour construíram uma vila residencial nos limites do antigo Engenho dos Coqueiros, dando origem ao chamado Bairro Jabour — onde viveria por muitos anos o renomado músico e compositor Hermeto Pascoal.
Nas terras próximas às estradas dos Coqueiros e do Taquaral, do lado oposto à linha férrea, extensas áreas cultivadas por lavradores posseiros foram gradualmente abandonadas. Esse processo permitiu, a partir de 1950, o surgimento de um loteamento com casas construídas por moradores que detinham direito de posse sobre a terra.
O crescimento das comunidades a partir dos anos 1980
A partir das décadas de 1980 e 1990, a população da região cresceu significativamente, ocupando ambos os lados da estrada do Taquaral e dando origem à Comunidade Fazenda Coqueiro — uma área de mais de um milhão de metros quadrados — somada à comunidade Jardim Clarice, formada em 1992.
Outras comunidades e conjuntos habitacionais também marcaram a formação do bairro ao longo do século XX, entre eles:
- A comunidade Coréia, criada em 1951, situada entre o Bairro Jabour e a linha do trem;
- O Conjunto Habitacional Miguel Gustavo, conhecido como “Rebu”, construído pela CEHAB em 1972, com 2.466 casas geminadas;
- A Comunidade do Jacaré, datada de 1940, na divisa com o bairro Santíssimo;
- O Conjunto Senador Camará, de 1971;
- O Bairro Santo André, formado em 1986;
entre outros loteamentos e conjuntos populares que se espalharam pelo território ao longo das décadas.
Geografia e áreas verdes
O bairro é atravessado pelo rio Viegas, um dos formadores do rio Sarapuí, cujas nascentes se localizam no Parque Estadual da Pedra Branca. A região abrange as Serras de Bangu, do Viegas e do Lameirão, além dos vales do Rosário e da Virgem Maria, fazendo limites com o morro da Bandeira e com o Pico da Pedra Branca, que atinge 1.025 metros de altitude.
Um bairro construído em camadas
De fazenda produtora de açúcar e café a território de dezenas de comunidades populares, Senador Camará resume, em sua trajetória, o próprio processo de formação da Zona Oeste do Rio de Janeiro: um espaço moldado por grandes propriedades rurais, pela chegada da ferrovia, pela especulação imobiliária e, sobretudo, pela força de ocupação popular que definiu boa parte de sua paisagem atual.
Nota histórica: a denominação, delimitação e codificação do bairro de Senador Camará foram estabelecidas pelo Decreto Nº 3.158, de 23 de julho de 1981, com alterações promovidas pelo Decreto Nº 5.280, de 23 de agosto de 1985.