Lugares Zona Oeste RJ

Curiosidades , dicas , história e roteiros de turismo na AP5 da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

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Escravizados fugidos em Campo Grande RJ

De acordo com anúncios no jornal Diário do Rio de Janeiro entre 1821 e 1833, segue relato das fugas e descrições dos escravizados. As transcrições e imagens foram criadas por IA.

“No dia 21 de Janeiro de 1825, fugio hum cabrinha, por nome Manoel, idade 13 para 14 annos, da Freguezia de Campo Grande, levou vestido duas camizas huma fina, outra de algodão, cilouras, colete de fustão branco, calça branca, jaqueta de pano azul, e coberta de baeta; quem o levar a seu Snr. José Pereira de Carvalho, morador na mesma Freguezia, receberá boas alviçaras.” 

O que esses detalhes nos contam?

“Hum cabrinha”: O termo era usado na época para descrever a cor da pele ou a ascendência (geralmente o filho de uma pessoa negra e outra parda/mulata, ou alguém de pele parda escura).

As roupas acumuladas: É muito comum notar nesses anúncios que as pessoas em fuga levavam consigo o máximo de roupas que podiam (frequentemente vestindo várias camadas, como as duas camisas, o colete e a jaqueta descritos). Essas mudas de roupa serviam tanto para se proteger do tempo quanto para tentar mudar de aparência e evitar a captura ao longo do caminho.

“Coberta de baeta”: A baeta era um tecido felpudo de lã, crucial para passar as noites ao relento.

“Boas alviçaras”: Significa que o escravizador (neste caso, José Pereira de Carvalho) oferecia uma boa recompensa financeira para quem capturasse e devolvesse o adolescente

Reprodução feita por IA

“35 Haverá dois mezes fugio da Fazenda intitulada do Viegas Freguezia do Campo Grande distrito desta Côrte, hum preto Moçambique, de nome Amaro, de idade de 20 a 21 annos de estatura ordinaria, magro, mas robusto, com hum defeito no dedo grande de hum dos pés; quem o achar ou delle der noticia certa receberá alviçaras podendo para isso dirigir-se…”

O que esses detalhes nos contam?

“Fazenda intitulada do Viegas”: Localizada em Campo Grande hoje Senador Camará, a Fazenda do Viegas foi uma das mais importantes e históricas propriedades da região no Rio de Janeiro colonial e imperial, inicialmente grande produtora de açúcar e, mais tarde, de café.

“Preto Moçambique”: Diferente do anúncio do menino Manoel (que era nascido no Brasil ou de traços miscigenados, descrito como cabrinha), Amaro é identificado por sua nação de origem. Ele era um homem escravizado trazido da costa oriental da África (região de Moçambique), o que significa que ele sobreviveu à terrível viagem transatlântica do tráfico de escravizados.

“Estatura ordinaria”: Significa que ele tinha uma altura comum/mediana para a época.

“Defeito no dedo grande”: Sinais físicos particulares (como cicatrizes, marcas de nascença ou deformidades nos membros) eram os elementos mais valiosos para os captores e capitães-do-mato identificarem a pessoa em fuga.

“A quem lhe faltar huma escrava de nome Maria, que foi aprehendida na Cancela do Leme da Imperial Fazenda de Santa Cruz, e foi entregue ao Juiz de Paz da Freguezia do Campo Grande; pode a procurar em casa do mesmo Sr.; para lhe ser entregue depois de a justificar, pois a está curando que estava quasi aleijada de hum pé. Bento José Gonçalves Teixeira, Juiz de Paz da Freguezia do Campo Grande.”

O que esses detalhes nos contam?

“Aprehendida na Cancela do Leme…”: Maria foi capturada em um ponto de controle (cancela) da Imperial Fazenda de Santa Cruz, uma das maiores propriedades da Coroa no Rio de Janeiro.

“Quasi aleijada de hum pé”: O anúncio revela que o Juiz de Paz estava prestando cuidados médicos (“a está curando”) à Maria devido a uma grave lesão ou condição em um dos pés, um detalhe crucial para a identificação por parte de quem a escravizava.

“FUGIO no dia 28 do mez proximo passado, da fazenda do Guandú, na freguesia de Campo Grande, um escravo de nome João Manuel, nação Rebollo, idade 38 a 40 annos, baixo, cheio de corpo, rosto largo, nariz chato, pouca barba, vestido com roupa de algodão de Minas, e costuma andar com os pés forrados de couro, a que chamão alprecatas; quem o apprehender ou d’elle tiver noticia, póde participar na mesma fazenda, ou na rua de S. Lourenço n. 16, que será bem gratificado; e se protesta contra qualquer pessoa que o tenha acoitado pelos dias”

O que esses detalhes nos contam?

“Fazenda do Guandú”: Mais uma importante propriedade histórica da região da Zona Oeste (Campo Grande/Santa Cruz), fortemente ligada aos caminhos rurais e à produção agrícola do Rio de Janeiro oitocentista.

“Nação Rebollo”: Identifica a origem étnico-linguística de João Manuel. Os Rebolo (ou Libolos) eram povos de origem banta, oriundos de uma região ao sul do rio Cuanza, no atual território de Angola.

“Roupa de algodão de Minas”: Um tecido rústico, resistente e muito comum no período imperial, produzido de forma semi-industrial ou doméstica na província de Minas Gerais e amplamente comercializado para vestir a força de trabalho escravizada.

“Alprecatas” (Alpargatas/Alpercatas): Um detalhe raríssimo e fascinante, já que a imensa maioria da população escravizada andava completamente descalça. O fato de ele “forrar os pés de couro” indica uma proteção especial para longas caminhadas, um traço marcante de sua identidade e cotidiano de trabalho.

“NO dia 11 do corrente, fugio da rua do Hospicio n. 84, uma preta de nome Rosaria, de nação Benguella, estatura regular, idade pouco mais ou menos 34 annos; levou um vestido côr de roza, e corpinho de chita asul claro, lenço preto no pescoço, falla como crioula, e veio a pouco tempo da freguesia de Campo Grande; quem a prender queira leval-a ao n. acima, ou participar, que será gratificado.”

O que esses detalhes nos contam?

“Rua do Hospicio n. 84”: Atual Rua do Buenos Aires, no centro do Rio de Janeiro. O anúncio mostra que ela fugiu da área urbana central da Corte.

“Nação Benguella”: Indica que Rosaria era originária da região de Benguela, no atual território de Angola, uma das principais zonas de embarque do tráfico transatlântico de escravizados para o Rio de Janeiro.

“Falla como crioula”: Embora fosse africana (“de nação”), a observação de que falava “como crioula” (termo usado para os negros nascidos no Brasil) indica que Rosaria já estava há bastante tempo no país, dominando perfeitamente a língua portuguesa e os costumes locais (um processo histórico chamado de crioulização).

“Veio a pouco tempo da freguesia de Campo Grande”: Uma conexão direta com a Zona Oeste rural. Essa informação era vital porque muitas pessoas em fuga tentavam retornar a lugares onde tinham redes de apoio, conhecidos ou familiares.

“Há perto de um mez que anda fugido um escravo pardo, de nome Procopio, idade 21 annos, bem feito de corpo, feições bonitas, tendo os beiços uns pouco grossos; côr retinta, cabellos anellados, e sobre uma das sobrancelhas um pequeno sinal de queimadura, é official de alfaiate e cocheiro, muito esperto, e costuma intitular-se forro, tendo ainda ha pouco sido apprehendido de uma outra fuga que fez, e recolhido á casa de detenção de Nictheroy, onde se conservou por muitos dias, por ter-se apresentado como forro, e denominando-se João Alves da Silva Ribeiro E’ provavel que tenha seguido caminho de Minas ou que esteja acoitado na freguezia de Campo Grande, onde já esteve algum tempo, e deixou conhecidos: é magro e costuma trajar-se bem. Quem o apprehender ou d’elle der noticias a seu senhor por fórma que possa ser capturado, receberá a gratificação de quarenta mil réis; na rua do Lavradio n. 40.”

O que esses detalhes nos contam?

“Escravo pardo… côr retinta”: O texto traz uma aparente contradição física muito comum nas percepções raciais do século XIX, alternando entre “pardo” e “côr retinta”, ou talvez indicando uma pele escura com traços específicos, associados a “feições bonitas” e “cabellos anellados” (cacheados/ondulados).

“Official de alfaiate e cocheiro”: Procópio possuía dois ofícios urbanos de grande prestígio e mobilidade. Ser oficial de alfaiate explica diretamente o fato de ele ser magro e “costumar trajar-se bem”, usando roupas de bom corte para se misturar à população livre.

“Costuma intitular-se forro”: Uma forte estratégia de resistência. Procópio usava sua vivacidade (“muito esperto”) e excelente comunicação para se passar por um homem livre (forro). Em uma fuga anterior, ele conseguiu enganar as autoridades na Casa de Detenção de Niterói por muitos dias adotando um nome civil completo: João Alves da Silva Ribeiro.

“Caminho de Minas ou… Freguezia de Campo Grande”: O anúncio indica que ele poderia ter tomado a rota dos tropeiros rumo a Minas Gerais ou buscado abrigo em Campo Grande, onde sua rede de solidariedade e sociabilidade já estava estabelecida (“deixou conhecidos”).

“Rua do Lavradio n. 40”: Endereço central na Corte do Rio de Janeiro onde o escravizador aguardava notícias, oferecendo a alta recompensa de 40 mil réis.

“FUGIO no dia 18 do corrente, da rua do Rosario n. 114, o escravo de nome Fortunato, crioulo, idade 26 annos, grosso do corpo, cara redonda, olhos grandes, barba pouca por baixo do queixo, andava trabalhando no ganho na cidade; desconfia-se que fosse para a freguezia do Campo Grande, por ter sido escravo na fazenda da Sra. marqueza de Jacarepagua, no Mato da Paciencia; seu senhor protesta contra quem o tiver acoutado com todo o rigor das leis: quem o levar ao numero acima será bem recompensado.”

O que esses detalhes nos contam?


“Rua do Rosario n. 114”: Antiga e importante via do centro urbano do Rio de Janeiro. Fortunato escapou a partir dessa área central da Corte.

“Crioulo”: Significa que Fortunato nasceu no Brasil, sendo culturalmente integrado ao idioma e aos costumes locais desde a infância.

“Andava trabalhando no ganho na cidade”: Fortunato era um “escravo de ganho”. Isso significa que ele circulava com certa autonomia pelas ruas vendendo serviços ou mercadorias para entregar uma cota diária ou semanal de dinheiro ao seu senhor, o que facilitava sua circulação e planejamento de fuga.

“Fazenda da Sra. marqueza de Jacarepagua, no Mato da Paciencia”: Uma rica conexão geográfica. A suspeita de que ele tenha ido para Campo Grande baseia-se no fato de ele ter pertencido anteriormente a essa fazenda na região da Paciência (Zona Oeste), indicando que ele possuía laços afetivos, familiares ou geográficos antigos e profundos naquele território rural.

deca serejo

Deca Serejo é maranhense, moradora de Campo Grande, guia de turismo, graduanda em História e apaixonada pela cidade maravilhosa ,bairrista e idealizadora do Rio de Coração Tour, um Projeto de turismo e de valorização de territórios na Área de Planejamento 5.2 da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro

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