Lactários em Campo Grande RJ
Na década de 1930, o Rio de Janeiro viveu um intenso processo de expansão das políticas de saúde pública voltadas para as populações pobres, especialmente nas zonas rurais e suburbanas. Nesse contexto surgiram os lactários, instituições destinadas ao combate da mortalidade infantil e da desnutrição, oferecendo leite, assistência médica e orientação às mães. Em Campo Grande, na Zona Oeste carioca, essa iniciativa ganhou força através da atuação conjunta do poder público, médicos sanitaristas e da Associação das Damas Protetoras da Infância.
Segundo reportagem publicada pela revista O Malho, em 25 de novembro de 1933, o serviço de lactários era considerado uma obra de “grande alcance social”. O primeiro lactário da zona rural foi instalado em Dona Clara, funcionando como modelo para outras unidades criadas em bairros suburbanos como Penha, Bangu, Campinho e Campo Grande.
Os lactários atendiam principalmente crianças pobres, anêmicas e desnutridas. O serviço oferecia leite preparado “cientificamente”, sopas para mães nutrizes, acompanhamento médico e controle do desenvolvimento infantil. As reportagens destacavam casos de recuperação física de crianças consideradas frágeis ou “distróficas”, associando o tratamento ao aumento de peso e à redução de doenças intestinais e respiratórias.
Entretanto, os lactários não podem ser compreendidos apenas como ações de caridade ou assistência social. Eles faziam parte de um projeto higienista mais amplo que se consolidava no Brasil nas primeiras décadas do século XX. O higienismo defendia que o progresso da nação dependia da melhoria das condições sanitárias da população, especialmente das classes populares.
Médicos, sanitaristas e autoridades públicas acreditavam que era necessário “educar” os hábitos das famílias pobres, controlando práticas de alimentação, higiene, maternidade e cuidados infantis. Assim, os lactários funcionavam também como espaços de vigilância e disciplinamento social, onde mães eram orientadas sobre amamentação, limpeza do corpo, alimentação correta e comportamento considerado saudável.
A própria linguagem utilizada nas reportagens revela essa influência higienista e eugenista. O texto menciona que a obra beneficiava a “raça” e ajudava no fortalecimento físico da população. Essas ideias estavam ligadas às teorias eugênicas difundidas na época, que defendiam a regeneração nacional por meio do saneamento, da medicina preventiva e do controle dos corpos.
Entre os principais defensores desse projeto estavam médicos como Belisário Penna, Samuel Uchôa e José Sarvêras, ligados ao Saneamento Rural e à Saúde Pública. Inspirados em experiências observadas na Europa e nos Estados Unidos, eles buscavam implantar no Brasil políticas modernas de assistência e controle sanitário.
Em Campo Grande, a fundação da Associação das Damas Protetoras da Infância marcou a participação ativa da elite local nesse movimento. A entidade foi criada durante uma cerimônia realizada no Cine-Theatro Progresso e tinha como principal objetivo auxiliar na instalação e manutenção do lactário da região.
As chamadas “damas protetoras” desempenhavam papel fundamental na organização de campanhas beneficentes, arrecadação de recursos e administração das ações assistenciais. Ao mesmo tempo, representavam um modelo de atuação feminina ligado à filantropia e à moralização social, muito valorizado naquele período.
Dessa forma, os lactários de Campo Grande e de outras áreas suburbanas do Rio de Janeiro foram instituições que combinaram assistência médica, filantropia feminina e políticas higienistas. Ao mesmo tempo em que salvaram vidas e ampliaram o acesso aos cuidados infantis, também refletiram os projetos de controle social e as ideias eugenistas presentes na sociedade brasileira das primeiras décadas do século XX.
A história dos lactários revela, portanto, como saúde pública, assistência social e ideologias de “civilização” estiveram profundamente conectadas na formação dos subúrbios cariocas e na construção das políticas voltadas à infância no Brasil.
Imagens coloridas por IA