Emancipação de Campo Grande RJ
Campo Grande, RJ: Cidade ou Bairro?
Campo Grande é um bairro, e não uma cidade. No entanto, o sonho da emancipação acompanha parte de seus moradores há mais de um século. Este artigo resgata a trajetória das principais tentativas de transformar a região em um município independente, mostrando os argumentos favoráveis e contrários ao movimento.
Atualmente, Campo Grande é o maior bairro do Brasil em população, com cerca de 352 mil habitantes, segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE.
Um dos principais argumentos utilizados pelos defensores da emancipação sempre foi a capacidade econômica da região. Eles sustentam que a Zona Oeste representa uma das principais áreas geradoras de riqueza da cidade do Rio de Janeiro.
Segundo o Impostômetro, até o momento da elaboração deste artigo, o Estado do Rio de Janeiro já havia arrecadado mais de R$ 309 bilhões em impostos, sendo aproximadamente R$ 114 milhões provenientes da capital. Para os emancipacionistas, Campo Grande seria responsável por uma parcela significativa dessa arrecadação, o que justificaria sua autonomia administrativa e financeira.
Todo morador de Campo Grande conhece a Lei nº 1.627/1968, promulgada pelo governador do Estado da Guanabara, Francisco Negrão de Lima, que reconheceu Campo Grande como cidade. Entretanto, conforme o próprio governador esclareceu durante as comemorações do aniversário do bairro, em 1969, essa lei possuía apenas caráter honorífico, sem alterar sua condição administrativa, permanecendo Campo Grande como bairro do município do Rio de Janeiro.
As primeiras articulações políticas pela autonomia da região remontam à segunda década do século XX, quando surgiu uma importante força política conhecida como Triângulo Carioca, formada por Guaratiba, Campo Grande e Santa Cruz.
O grupo era liderado por Júlio Cezário de Mello, que exercia forte influência política desde o início do século e controlava grande parte do eleitorado das antigas paróquias de Campo Grande e Santa Cruz. Outro grupo de destaque na política regional era formado pela família Caldeira de Alvarenga.
Em 1945, lideranças locais criaram o Partido da Lavoura, embora a legislação da época impedisse sua oficialização, já que os partidos nacionais precisavam possuir mais de dez mil eleitores distribuídos em cinco regiões eleitorais do país. Foi somente anos depois que a região passou a ser oficialmente conhecida como Zona Oeste, substituindo a antiga denominação de Triângulo Carioca.
Na década de 1950 surgiu uma nova liderança política em Campo Grande: Miécimo da Silva. Eleito vereador aos 25 anos, tornou-se conhecido como o “Vereador das Bicas”, destacando-se como um dos principais opositores das antigas lideranças do Triângulo Carioca.
Em 1960, quando a Guanabara tornou-se um estado brasileiro, ocorreu a primeira tentativa organizada de emancipação da região. Foi criada a União Municipalista do Triângulo Carioca, presidida pelo jornalista e engenheiro Edgar Luís Duque Estrada, tendo como vice Mário Barbosa e contando com o apoio de João Abrão Elis, Mário Barbosa Filho, Elias Nametala Fetue, José Chaia, Manuel da Silva Peres, Dirlande Brum de Oliveira, Moacir Sreder Bastos e diversas outras lideranças.
O objetivo era criar um único município reunindo Campo Grande, Bangu e Santa Cruz. O plebiscito, entretanto, foi marcado por irregularidades, inclusive com a participação de eleitores da Zona Sul da cidade. A proposta acabou não prosperando. Como resultado político daquele movimento, a Zona Oeste conquistou a criação de sua Região Administrativa, em 1964, e Campo Grande recebeu, em 1968, o título simbólico de cidade.
Ano 1967\Edição 04151
Após a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, em 1974, o deputado estadual José Miguel, do PDT, voltou a defender a emancipação da Zona Oeste durante o governo Chagas Freitas. Esse mesmo deputado, em 1986, seria o autor da lei que criou o monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça XI.
Na década seguinte, em 1980, foi a vez do deputado Siqueira Campos, com apoio da Associação Comercial de Campo Grande e do administrador regional Hélio Albuquerque Nogueira, retomar o projeto.
Naquele período, a região atendia aos requisitos legais para emancipação, entre eles:
- população superior a 10 mil habitantes;
- eleitorado correspondente a pelo menos 10% da população;
- centro urbano consolidado;
- arrecadação tributária suficiente para garantir viabilidade econômica.
O novo município abrangeria praticamente toda a Zona Oeste, entre Deodoro e Santa Cruz.
A tentativa mais conhecida ocorreu durante o governo de Leonel Brizola, quando o professor, teatrólogo e deputado estadual Herculano Carneiro, fundador do Teatro Rural dos Estudantes e natural de Campo Grande, apresentou o último grande projeto de emancipação da Zona Oeste. Eleito deputado estadual após sete candidaturas, Herculano propôs a criação de um município composto por Bangu, Campo Grande e Santa Cruz.
A proposta encontrou forte resistência tanto do Governo do Estado quanto da Prefeitura do Rio de Janeiro, que enxergavam a emancipação como uma ameaça à integridade econômica e administrativa da capital.
Enquanto lideranças locais defendiam maior autonomia e investimentos para a região, autoridades estaduais classificavam o projeto como “leviano” e “demagogo”, alegando que o novo município seria economicamente inviável. Entre os principais defensores da emancipação destacavam-se Herculano Carneiro e o deputado federal Álvaro Valle.
Eles argumentavam que a região possuía:
- população suficiente;
- forte atividade comercial;
- parque industrial consolidado;
- arrecadação própria;
- capacidade administrativa para constituir um novo município.
Em oposição ao projeto estavam o deputado estadual Clemir Ramos e o PDT, que sustentavam que a população desejava continuar pertencendo ao município do Rio de Janeiro e que a emancipação comprometeria financeiramente a capital.
Em 1987, o prefeito Saturnino Braga passou a atuar diretamente para impedir a aprovação do projeto. Ele buscou apoio de deputados estaduais e federais, defendendo que a separação de bairros como Barra da Tijuca, Jacarepaguá, Bangu, Campo Grande e Santa Cruz provocaria sérios prejuízos ao município do Rio de Janeiro. Enquanto isso, o governador Moreira Franco preferiu não assumir uma posição pública sobre a proposta.
Os defensores da emancipação afirmavam que o novo município proporcionaria:
- descentralização administrativa;
- maior autonomia política e financeira;
- administração mais próxima da população;
- melhor aproveitamento do potencial econômico da Zona Oeste.
Os opositores defendiam que a emancipação resultaria em:
- redução da arrecadação da cidade do Rio de Janeiro;
- fragmentação territorial da capital;
- dificuldades administrativas e jurídicas;
- fortalecimento da especulação imobiliária;
- perda da identidade da Zona Oeste como parte integrante do município.
Com a eleição de Marcello Alencar para a Prefeitura do Rio de Janeiro, em 1988, o projeto de emancipação perdeu força política. Embora continuasse sendo defendido por algumas lideranças regionais, a ausência de consenso entre os governos municipal e estadual, aliada às mudanças no cenário político fluminense, fez com que a proposta fosse gradualmente abandonada.