Jardim Moriçaba em Senador Vasconcelos
A história do Jardim Moriçaba
Para contar a história do Jardim Moriçaba, precisamos voltar ao começo da Estrada Moriçaba, que tem início na Rua Iperana, via que já figurava no mapa desde 1930. Antes, a Estrada Moriçaba chamava-se Caminho do Velloso, tendo o reconhecimento do nome atual apenas em 1945.
O caminho Do Velloso
O Caminho do Velloso já figurava nas páginas policiais dos jornais no século XIX e no início do século XX como um lugar com muitas lavouras e sitiantes que costumavam se desentender por divisões de terras.
1. O Homicídio de Antônio Rodrigues do Valle (Janeiro de 1885)
Esta é uma das menções criminais mais antigas localizadas. Uma nota curta publicada na edição de 1º de janeiro de 1885 informa que um homem chamado Antônio Rodrigues do Valle havia sido “barbaramente espancado” na localidade indicada como estrada Caminho do Velloso, em Campo Grande (vale lembrar que na divisão territorial da época, o território atual de Senador Vasconcelos era integrado à grande freguesia de Campo Grande). A vítima foi agredida gravemente na via e acabou falecendo na manhã do dia seguinte devido aos ferimentos. “ ... a 23 de novembro de 1883, os acusados espancaram a António Rodrigues do Valle, na estrada denominada Caminho do Velloso, em Campo Grande, vindo Valle a falecer no dia seguinte” A Folha Nova (RJ) – Ano 1885\Edição 00797 (1)
Um dos casos policiais com maior cobertura detalhada na Hemeroteca da Biblioteca Nacional ocorreu em 1926, envolvendo uma disputa violenta entre vizinhos que residiam no local.
2. A Tocaia e o Assassinato de Jacintho Jesus de Abreu (Maio de 1926)
O Crime: O agressor montou uma tocaia escondido em uma roça situada às margens do Caminho do Velloso. Ele aguardou o retorno de seu vizinho, Jacintho Jesus de Abreu, sabendo que aquela era a única via de tráfego que dava acesso às moradias daquela parte isolada.
A Emboscada: Jacintho caminhava de forma tranquila pelo trajeto de terra batida, trazendo pela mão a sua filha pequena, Maria de Lourdes, de apenas 6 anos de idade, quando foi surpreendido e brutalmente assassinado a golpes de foice na frente da criança. O crime chocou a comunidade rural e mobilizou a polícia do distrito na época. [2, 3]...foi ao cair da tarde. De tudo se esquecendo, arma no bolso, e aquele ódio a animar-lhe a vontade de vingança, Francisco de Souza deixou a sua roça, no Caminho do Velloso, e foi, sorrateiramente, aguardar a passagem de seu vizinho, Jacintho Jesus de Abreu.” A Noite (RJ) -Ano 1926\Edição 05365
3. O Achado de Cadáver do Marinheiro (Junho de 1936)
Em 1936, o Caminho do Velloso voltou às páginas policiais devido a um achado de cadáver envolto em mistério.
Moradores locais alertaram as autoridades do 28º Distrito Policial sobre a presença do corpo de um homem, de cerca de 35 anos, que vestia um uniforme oficial da Marinha do Brasil, caído na mata densa que margeava o caminho.
Ao investigar a cena, a autoridade policial encontrou ao lado do homem um vidro contendo formicida. Devido ao isolamento geográfico do local na década de 1930, a região de mata fechada ligada ao maciço acabou sendo usada para o descarte ou para o ato que inicialmente foi registrado pela perícia técnica como suspeita de suicídio.
O que esses registros contam sobre a história de Jardim Moriçaba?
Enquanto o material moderno da Prefeitura afirma que a história começa de fato em 1920 e ganha o nome da família Veloso a partir da chegada deles nos anos 1940, os diários de 1885 provam que a estrada e a denominação “Caminho do Velloso” já possuíam existência jurídica, geográfica e social pelo menos 60 anos antes. As crônicas policiais reforçam a tese geográfica de que o local funcionava sob uma lógica estritamente rural e despoliciada, onde a mata e a falta de iluminação — descritas nas notas de época como determinantes para a execução ou ocultação de crimes — moldavam o cotidiano da Zona Oeste republicana.
Sobre os Velloso
Não existiu nobreza ou títulos de “Barões” ligados ao sobrenome Veloso/Velloso em Campo Grande no período do Império ou início da República. As elites econômicas daquela região carregavam outros sobrenomes tradicionais latifundiários.
Famílias com esse perfil agrário dos Vellloso apareciam na imprensa antiga em editais de divisas de terras, inventários ou registros criminais locais. Esse era o canal padrão em que famílias de lavradores e médios proprietários eram registradas nos jornais oitocentistas da Hemeroteca Digital (como no caso real do homicídio de Antônio Rodrigues do Valle no Caminho do Velloso em 1885)
Para quem ocupou o Jardim Moriçaba nas décadas de exclusão (anos 1950 a 1980), possuir uma chácara estruturada e com recursos naturais (como o clã pioneiro) era o equivalente local a ser “rico”, mesmo que para a alta sociedade do centro do Rio eles fossem apenas produtores rurais.
O Jardim Moriçaba
A partir da década de 1940, os espólios de antigos moradores da região — provavelmente imigrantes portugueses — começam a ser leiloados, um processo que se estendeu até 1978. Essa dinâmica abriu caminho para a atuação dos senhores José e Moysés Palatnik como proprietários e loteadores do Jardim Moriçaba, cuja consolidação veio acompanhada de um Projeto Aprovado de Alinhamento, responsável por definir o traçado das ruas e a clara separação entre as áreas públicas e privadas ao longo da década de 1960.
Sobre os Palatnik
A trajetória de José e Moysés Palatnik como proprietários das terras que deram origem ao loteamento Jardim Moriçaba estabelece uma ligação direta entre uma família de imigrantes judeus e a formação urbana de Senador Vasconcelos .A atuação empresarial dos Palatnik na região encontrava precedentes em suas atividades imobiliárias e comerciais: um edital publicado no Correio da Lavoura, em 11 de junho de 1950, já registrava a empresa Mala, Palatnik & Cia. Ltda. — com sede em Natal e representada por José Palatnik —, que depositou memorial, planta e títulos de domínio referentes a uma grande área de terras também na região de Nova Iguaçu.
A chegada da família Palatnik ao Brasil
A história da família tem início no começo do século XX na região da Podólia, no sudoeste da atual Ucrânia, onde uma próspera comunidade judaica enfrentava perseguições, discriminação religiosa e graves dificuldades econômicas. Diante desse cenário, o patriarca David Palatnik tomou a difícil decisão de dividir a família em busca de melhores condições de vida em outros territórios. Enquanto David, sua esposa e quatro dos filhos seguiram para a Palestina, os quatro irmãos mais velho — Tobias, Adolfo, Jacob e José — vieram para o Brasil acompanhados do tio Beinish, conhecido como Braz Palatnik. José, que tinha apenas 16 anos na época, integrou o grupo cuja chegada ao país é situada entre 1911 e 1912 nas fontes consultadas, havendo registro oficial do historiador Luís da Câmara Cascudo apontando a data exata de 14 de novembro de 1912.
Décadas após essa imigração, José e Moysés Palatnik figuram como proprietários no projeto municipal de remembramento e loteamento (PAA 7396 / PAL 22531), unindo de vez a saga familiar iniciada no Leste Europeu ao desenvolvimento urbano da Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Sobre o significado de Moriçaba
O termo é registrado nos documentos da Prefeitura do Rio de Janeiro e no acervo de memórias locais como uma palavra de origem indígena que significa “carinho”. Essa é a justificativa oficial e cultural que os moradores e o município adotaram.
Uma busca minuciosa na Hemeroteca revela que, antes de se tornar um endereço geográfico fixo no Rio de Janeiro com a abertura da estrada na década de 1940, o nome “Moriçaba” aparecia com frequência nos jornais em um contexto bem específico: o turfe (corrida de cavalos).
LEI Nº 3.122, DE 31 DE OUTUBRO DE 2000