Do antigo Beco dos Crioulos à Travessa Manoel de Jesus: terras, disputas e memória em Campo Grande
Quando iniciei a pesquisa sobre a Travessa Manoel de Jesus, antigo Beco dos Crioulos, não imaginava a complexidade histórica, jurídica e social que esse pequeno trecho urbano carregava. O que hoje parece apenas mais uma travessa do centro de Campo Grande revela, na verdade, camadas profundas de disputas por terra, heranças, exclusões sociais e construção desigual do espaço urbano.
Os primeiros personagens centrais dessa história são o Dr. José Joaquim Pereira da Costa e sua esposa Aracy Villa Nova, proprietários de uma extensa porção de terras em Campo Grande. Essas terras se estendiam da chamada Esquina do Pecado até a Estrada da Cachamorra, abrangendo uma área estratégica do bairro em formação. Médico clínico formado na Europa, José Joaquim representava um perfil de proprietário instruído e economicamente relevante no início do século XX.
O equilíbrio patrimonial desse território começa a ruir com a morte de Aracy, em 1911, seguida pelo falecimento do médico, em 1916. O casal não teve filhos, o que abriu caminho para uma complexa disputa sucessória. Pelo menos cinco irmãos do médico passaram a reivindicar a herança, dando início a conflitos judiciais que se estenderiam por décadas. Esses herdeiros chegaram, inclusive, a mover ações contra a Companhia de Bondes, já que os trilhos da linha Rio da Prata atravessavam terras pertencentes ao espólio.
Entre esses parentes estava uma sobrinha do médico, Emília Pereira da Costa, filha de um de seus irmãos. Emília havia se casado em 1904 com Manoel Augusto de Jesus, português, filho de Manuel de Jesus e Delfina Júlia de Barros. O casal teve cinco filhos homens e três filhas. Emília concedeu ao marido poderes como procurador, tornando-o representante do espólio do tio médico nas disputas pela partilha das terras.
Mesmo antes da morte de José Joaquim Pereira da Costa, Manoel Augusto de Jesus já oferecia lotes à venda em Campo Grande. Manoel faleceu em 1961, sendo registrado em sua certidão de óbito como lavrador, um dado que contrasta com sua atuação intensa no mercado de terras e nos processos judiciais.
Na década de 1920, as disputas pela herança continuavam sem solução. Um edital judicial da 6ª Vara Cível do Distrito Federal, publicado em 1922, revela uma ação de cobrança e outorga de escritura relacionada à venda de terrenos situados à margem da Estrada Real de Santa Cruz — atual Avenida Cesário de Melo. O processo envolvia Elvira Reinert, promitente compradora, citada como ausente, em lugar incerto e não sabido, na Europa, além de Pedro Pereira da Costa, sua esposa Leonor Veneroto da Costa, e outros herdeiros ligados ao espólio do Dr José Joaquim Pereira da Costa.
Também figuram no processo Manoel Augusto de Jesus, atuando como inventariante e procurador, Emília Pereira de Jesus, Maria Amélia das Dores e Joaquim Ferreira, este último representado por procurador. O litígio teve origem em um contrato preliminar de compra e venda, no qual os vendedores se comprometeram a entregar o imóvel livre de quaisquer ônus civis ou fiscais. Embora o valor do terreno estivesse ajustado e parte do pagamento tivesse sido efetuada, o saldo não havia sido integralmente quitado, o que serviu de base para a resistência dos vendedores em outorgar a escritura definitiva.
O despacho e a sentença reconheceram a validade dos documentos apresentados, determinaram a continuidade do processo e autorizaram a publicação do edital como meio legal de notificação, uma vez que a compradora se encontrava fora do país e sem endereço conhecido. Ainda assim, a pendência se arrastaria por mais de um ano
Já na década de 1940, parte das terras vinculadas ao marido de Emília recebeu uma planta de loteamento e arruamento, numa tentativa de legalização. É nesse contexto que surge o Beco dos Crioulos segundo informações de parente de Manoel de Jesus o local fora invadido. Tratava-se de um espaço profundamente marginalizado: valas de esgoto a céu aberto, ausência de luz elétrica, água encanada e infraestrutura básica. Localizado no coração de Campo Grande, o beco tornou-se sinônimo de insalubridade, medo e estigmatização.
Os jornais da época frequentemente retratavam o local como esconderijo de bandidos e fugitivos da polícia, reforçando o estigma social. Era, sobretudo, um território de gente pobre e humilde, em sua maioria pretos ,com casas situadas nos fundos das ruas Cariús (antiga Rua do Poço) e Elias Lobo, funcionando como uma servidão que ligava a Avenida Cesário de Melo à Estrada do Cabuçu.
A origem do nome da localidade é desconhecida. Uma das hipóteses é que se trate de uma antiga comunidade de pretos forros que ali se estabeleceram , o que não coincide historicamente. Nesse beco surgiu o bloco carnavalesco Sinfonia dos Tamancos, que mais tarde se fundiria à primeira escola de samba de Campo Grande, o Império de Campo Grande na década de 1950 e que chegou a desfilar na Praça Onze.
Na década de 1990, a Prefeitura incluiu a área em dívida ativa e passou a procurar um dos herdeiros de Manoel Augusto de Jesus e Emília Pereira de Jesus para a quitação dos débitos existentes. Essa iniciativa evidencia como a antiga indefinição fundiária continuava produzindo efeitos práticos décadas depois da formação do loteamento.
Já nos anos 2000, teve início uma pesquisa fundiária sistemática sobre o antigo loteamento, como parte de um esforço mais amplo de regularização urbana. O Projeto para Legalização de Remembramento e Loteamento da Área foi aprovado pelo Grupo Especial de Trabalho, criado pelo Decreto nº 21.227/2002, marcando um passo importante no reconhecimento jurídico do território e na tentativa de sanar pendências históricas relacionadas à propriedade da terra.
A história da rua Manoel de Jesus, portanto, não é apenas a de um logradouro urbano. Ela revela como disputas jurídicas, interesses imobiliários e ausência do poder público moldaram um espaço marcado pela desigualdade, pela exclusão e pela resistência cotidiana de seus moradores — uma memória que ainda ecoa no território de Campo Grande.